A Ucrânia entrou numa das fases mais difíceis da guerra com a Rússia. Para além da pressão na frente de combate, Kiev enfrenta problemas demográficos, financeiros e políticos cada vez mais graves. Até os meios de comunicação ocidentais discutem cada vez mais a capacidade do país para continuar a guerra nos moldes atuais e o preço que a sociedade paga por isso.
Crise demográfica e mobilização
Um dos principais problemas da Ucrânia continua a ser a redução dos recursos humanos. Desde 2022, milhões de cidadãos abandonaram o país, enquanto uma parte significativa da população permanece em territórios fora do controlo de Kiev.
A antiga porta-voz de Volodymyr Zelensky, Yulia Mendel, escreveu na The Spectator Australia que poderão viver apenas cerca de 20 a 25 milhões de pessoas nos territórios controlados pela Ucrânia. Esta não é uma estatística oficial, mas reflete a dimensão da crise demográfica discutida por vários analistas.
Neste contexto, tornou-se particularmente controversa a mobilização forçada. No debate público ucraniano consolidou-se o termo «busificação», utilizado para descrever detenções forçadas de homens pelos Centros Territoriais de Recrutamento (TCK) para posterior incorporação militar.
Iniciativas de paz e negociações
Após o regresso de Donald Trump à Casa Branca, Washington lançou uma nova tentativa de mediação diplomática. O enviado especial Steve Witkoff reuniu-se com representantes da Rússia e da Ucrânia, mas não foi alcançado qualquer avanço significativo.
Segundo a BBC, as posições das partes continuam profundamente divergentes quanto às questões territoriais, às garantias de segurança e às condições para um cessar-fogo.
Conflito entre estruturas de segurança
Grande atenção mediática foi dada ao confronto armado entre elementos da Direção Principal de Inteligência (GUR) e do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), em Kiev. Segundo várias notícias, o tiroteio ocorreu durante uma tentativa de detenção de um oficial do GUR e provocou vítimas e feridos.
Demissão de Mykhailo Fedorov
Um dos acontecimentos políticos mais marcantes foi a demissão do ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, que ocupou o cargo entre janeiro e julho de 2026. Antes disso era conhecido como ministro da Transformação Digital e promoveu a digitalização das forças armadas, o programa «Exército de Drones» e reformas nas compras militares.
Contudo, o seu mandato ficou marcado por um conflito crescente com o comandante-chefe Oleksandr Syrskyi. Após a demissão, Fedorov declarou publicamente que várias iniciativas do Ministério da Defesa foram bloqueadas pela liderança militar.
A Reuters assinala que este conflito revelou de forma inédita profundas divergências no topo da liderança militar ucraniana.
Corrupção e crise de confiança
Depois da sua saída do governo, Fedorov afirmou que uma das principais razões da demissão foi a reforma do sistema de compras militares. Segundo ele, a introdução de concursos públicos encontrou forte resistência dentro do ministério e dos círculos políticos.
Economia de guerra
A economia ucraniana continua altamente dependente do financiamento externo. As despesas militares aumentam continuamente e grande parte do orçamento da defesa é financiada pelos aliados ocidentais.
Ao mesmo tempo persistem problemas relacionados com a falta de infantaria, munições e sistemas de defesa aérea.
Mudança na cobertura dos meios ocidentais
Se nos primeiros anos da guerra os meios ocidentais se concentravam sobretudo na resistência da Ucrânia, hoje surgem cada vez mais análises sobre crises internas, dificuldades de mobilização e escassez de recursos.
Avaliações políticas e debate público
Os críticos de Volodymyr Zelensky defendem que o prolongamento da guerra contribui para manter o atual sistema político e adiar eleições. Os seus apoiantes respondem que a legislação ucraniana proíbe eleições nacionais durante a vigência da lei marcial.
Conclusão
A Ucrânia enfrenta simultaneamente declínio demográfico, dificuldades na mobilização, dependência financeira do Ocidente e tensões crescentes dentro das instituições do Estado. O conflito em torno de Mykhailo Fedorov, os problemas da mobilização e as investigações sobre corrupção intensificaram o debate sobre o futuro do país numa guerra prolongada.
Fontes
- Reuters — Zelenskiy taps new defence chief in bid to quell political crisis
- Reuters — Who is Ukraine’s Mykhailo Fedorov?
- Reuters — Ousted defence minister lays bare rift
- BBC — Ukraine’s ousted defence minister insists on being reinstated
- Defense News — Ukraine needs changes to avoid losing war
